A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta

29.07.2016

RESUMO

O artigo tem por objetivo analisar a importância da escuta na história da psicanálise e no processo analítico. Para tanto, é feito um percorrido nos aportes freudianos desde os tempos iniciais da psicanálise até as importantes modificações técnicas propostas a partir da introdução do conceito de repetição. São consideradas, também, contribuições de autores atuais que demarcam o campo analítico como um singular espaço de intersubjetividade.

Unitermos: Psicanálise, Técnica psicanalítica, Inconsciente, Escuta, Intersubjetividade.

ABSTRACT

This article aims to analyze the importance of listening in the history of Psychoanalysis and in the analytical process. In order to do that, a review of Freudian approaches is done, from the beginning of Psychoanalysis up to the important technical modifications intended with the concept of repetition. The contribution of contemporary authors that circumscribes the analytical field as a unique space of intersubjectivity is also considered.

Keywords: Psychoanalysis, Psychoanalytic technique, Unconscious, Listening, Intersubjectivity.

 

 

 

Dois temas ocupam essas páginas: a história da minha vida e a história da Psicanálise. Elas se acham intimamente entrelaçadas (Freud, 1940[1938], p. 89).

 

Freud inaugura novos tempos: o tempo da palavra como forma de acesso por parte do homem ao desconhecido em si mesmo e o tempo da escuta que ressalta a singularidade de sentidos da palavra enunciada. Ocupa-se, em suas produções teóricas e em seu trabalho clínico, de palavras que desvelam e velam; que produzem primeiro descargas e depois associações. Palavras que evidenciam a existência de um outro-interno, mas que também proporcionam vias de contato com um outro-externo quando qualificado na sua escuta. Esses tempos em Freud inauguram a singularidade de uma situação de comunicação entre paciente e analista. Um chega com palavras que demandam um desejo de ser compreendido em sua dor, o outro escuta as palavras por ver nestas as vias de acesso ao desconhecido que habita o paciente. A situação analítica é, por excelência, uma situação de comunicação : nela circulam demandas nem sempre lógicas ou de fácil deciframento, mas as quais, em seu cerne, comunicam o desejo e a necessidade de serem escutadas.

A capacidade de ir além da ciência de sua época está intimamente ligada à possibilidade de Freud de buscar nas palavras de seus pacientes e em suas próprias – mais do que padrões de adaptação à moral e costumes vigentes – uma fala atravessada pelo inconsciente e pela sexualidade: mensagens cifradas e enigmáticas que demandaram outra qualidade de escuta para serem compreendidas. Ao se deparar com o sofrimento histérico, Freud põe-se a escutar um corpo que fala; nos sonhos descobre a capacidade dos elementos se condensarem e se deslocarem, criando uma outra cena; nos lapsos percebe a expressão de algo, via uma inesperada inabilidade na execução de atos ou falas até então exitosas. Ao dar cada vez mais espaço para o que escutava de forma diferente, no contato com seus pacientes, Freud pôde construir “tanto um novo ramo do conhecimento quanto um método terapêutico” (1940[1938], p. 91).

A psicanálise surge e se desenvolve na escuta e a partir da escuta singular à qual se propõe. Buscamos neste artigo resgatar e percorrer a história e o desenvolvimento do processo de escuta como recurso da técnica psicanalítica e suas implicações na psicanálise como teoria. À medida que o campo psíquico pode ser equiparado a um sistema aberto, a escuta destaca-se como ponto fundamental no campo intersubjetivo, característico do encontro analítico.

 

A palavra que se impõe

A psicanálise surge em reação ao niilismo terapêutico dominante na psiquiatria alemã do final do século XIX, que preconizava a observação do enfermo sem escutá-lo e a classificação da patologia sem o intuito de oferecer-lhe tratamento (Roudinesco e Plon, 1998). Freud inquieta-se com tal conduta. Mesmo tendo formação médica e estando imerso em um contexto científico de caráter positivista, a conduta psiquiátrica da época não o satisfaz. Freud propõe a todo tempo – e desde o início de sua experiência clínica no Hospital Salpêtrière com Charcot – que o paciente fosse escutado. Embora ainda distante de fundar a psicanálise, já começa a demarcar o importante papel que atribuiria à palavra.

Cabe ressaltar que estamos falando de uma palavra que lhe abriria novas possibilidades de compreensão do sofrimento humano. Desta forma, dois trabalhos se impõem: o de escutar a palavra do outro e o de produzir palavras que viessem ao encontro dessa demanda de ajuda. Talvez se demarque, desde esses tempos iniciais, uma característica essencial da psicanálise como método e técnica: estar aberta à singularidade desse outro que fala, seja na dimensão referente a seu sofrimento e pedido de ajuda, seja no que diz respeito ao efeito de sua ação terapêutica sobre ele. Ao abrir caminhos para que o homem repense sua história, a própria psicanálise escreve sua história de transformações e ampliações.

Os tempos iniciais são os de emprego da hipnose. Em estado hipnótico o paciente descreve cenas, conecta-se com o material traumático. Cabe ao médico, então, comunicar-lhe o que havia sido dito e descrito, uma vez que retornando do transe o paciente de nada se lembra. Os sintomas são esbatidos pelo uso desse método, mas o sujeito não se apropria ativamente de sua história. Então, no decorrer de seus trabalhos, Freud vai abandonando a hipnose e se direcionando à necessidade de criar outra forma de escutar. Surge a associação livre.

Também no trabalho de desconstrução e construção a palavra do paciente tem um efeito na teoria e na técnica. Emmy Von N. lhe pediu, certa vez, que não a tocasse, não a olhasse e nada falasse; queria apenas ser escutada. A palavra se impõe, apontando uma mudança no caminho de Freud: a cura viria por ela, mas não mais a palavra de um sujeito ausente, que delegava ao terapeuta uma função de memória de seus conteúdos traumáticos e que colocava em ação um recurso que priorizava a sugestão. Agora, é por meio das narrativas ativas de um sujeitoacordado , de seu discurso cheio de lacunas, da presença e ausência da palavra que o paciente passa a ser escutado. Ao retirar a palavra do que a nosografia diz sobre o paciente, Freud entrega a palavra ao próprio paciente para que ele fale sobre si mesmo. Surge então a psicanálise, marcada pelo convite a que o analisando, em uma posição ativa diante de seu processo de cura, comunique-se e associe livremente.

Introduzindo o conceito de inconsciente, Freud desloca a fala até um outro lugar, muito além da intenção consciente de comunicar algo: ao falar, o sujeito comunica muito mais do que aquilo a que inicialmente se propôs. O inconsciente busca ser escutado e ter seus desejos satisfeitos, comunicando-se por meio de complexas formações: sonhos, sintomas, lapsos, chistes, atos-falhos; fenômenos que apontam para esse “desconhecido” que habita o sujeito. E assim abre-se na palavra a dimensão do que escapa ao próprio enunciante.

O campo da patologia é o primeiro espaço no qual Freud observa a existência do inconsciente, ao focar o olhar sobre os sintomas durante seus trabalhos com as histéricas. Anos depois essa observação amplia-se, abrangendo também o que é da ordem dos processos psicológicos normais: os sonhos apontam para a existência universal do inconsciente. Por meio deles Freud depara-se com a imperiosa necessidade da escuta na prática clínica: são as associações do paciente que possibilitam o acesso aos significados de seus sonhos. Distancia-se, assim, a psicanálise de uma idéia de “código universal de deciframento”, uma vez que no processo de compreensão das produções do inconsciente a palavra terá que ser dada ao paciente.

Ao tratar da psicopatologia da vida cotidiana, Freud escreve a respeito de “falhas” que operam no discurso: palavras esquecidas, palavras trocadas, palavras suprimidas, palavras equivocadas. E o inconsciente mostra-se operante não apenas no dormir, mas também na vida de vigília. Ao tratar dos chistes, Freud detém-se em trocadilhos, piadas, aforismos: palavras que sob a égide da comédia podem ser ditas. E o inconsciente mostra-se operante na vida de vigília, não somente por meio da falha, mas também como “criador de novidade” (Hornstein, 2003, p. 151). Os textos freudianos dessa primeira década da psicanálise retratam, em última análise, o domínio permanente do inconsciente sobre a totalidade da vida consciente.

E assim a associação livre ganha destaque fundamental. De fato, a análise dos fenômenos psicológicos normais e patológicos só se mostra possível por meio dela, exigindo do analista, em contrapartida, uma capacidade de escuta que não reduza os espaços simbólicos que a associação livre viabiliza. Ao paciente cabe comunicar tudo o que lhe ocorre, sem deixar de revelar algo que lhe pareça insignificante, vergonhoso ou doloroso, enquanto que ao analista cabe escutar o paciente sem o privilégio, a priori , de qualquer elemento de seu discurso. Na efetivação dessa regra fundamental instaura-se a situação analítica, abrindo possibilidades do desvelamento da palavra.

No seio da associação livre vai se produzindo um deslocamento da imagem, do fato como fixo, e este vai se incluindo em múltiplas imagens caleidoscópicas cujas combinações possíveis se multiplicam e onde o ritmo, a cadência, a intensidade maior de alguns fonemas, a excitação explícita no gaguejar de uma palavra, o sentido duvidoso de uma frase mal construída, tudo isso vai dando tonalidades diferentes a estas figuras que não passam desapercebidas à escuta sutil da atenção flutuante. Ao mesmo tempo, ao ser escutado pelo analista, o próprio sujeito que fala se escuta (Alonso, 1988, p. 2).

Associando, o paciente fala de um outro – o inconsciente – que lhe é desconhecido e irrompe em sua fala quando a lógica consciente se rompe. Torna-se presente, em algum determinado momento da fala do paciente, a lógica do inconsciente, do processo primário. A partir de sonhos, atos-falhos, chistes, esquecimentos, ambigüidades, contradições, essa lógica vai se desvelando e os conteúdos sendo significados com a ajuda da interpretação.

Nestes primeiros tempos da psicanálise Freud apresenta o aparelho psíquico dentro de um modelo tópico, composto de três “lugares” – consciente, pré-consciente e inconsciente –, que se organizam em dois sistemas, com princípios reguladores e de funcionamento completamente distintos. Esses construtos teóricos sustentam uma técnica psicanalítica, a qual designa ao analista o trabalho de tornar consciente o inconsciente. O analista atua como um decifrador, que com seus recursos técnicos é capaz de traduzir e revelar ao sujeito seus desejos, fornecendo-lhe sentido desconhecido. A escuta analítica, sob este preceito técnico de tornar consciente o inconsciente, fica revestida de um saber e de um poder, ou utilizando a expressão lacaniana, o analista fica em um lugar de sujeito do suposto saber. Lugar que quando delegado pelo paciente pode, nos momentos iniciais da análise, auxiliar que palavras sejam enunciadas a esse outro, visto pelo paciente como possuidor de um saber pleno e absoluto. Entretanto, na medida em que o processo avança, cabe ao analista a recusa da ocupação desse lugar. A condução do processo analítico deve possibilitar a descoberta, por parte do paciente, de que ele é quem sabe de si: um saber que é patrimônio de um território desconhecido de si mesmo. Para alcançá-lo, além de ser escutado, o paciente deverá escutarse. É somente ao assumir a posição de quem não sabe a respeito de quem chega com uma demanda de ajuda que o analista poderá efetivamente exercitar a escuta analítica.

À medida que avança em suas formulações teóricas, Freud vai construindo, modificando e reconstruindo concepções técnicas, de forma a garantir a validade da psicanálise como método terapêutico. Em seus artigos sobre a técnica psicanalítica podemos acompanhar seus dilemas. Como pensar “regras” para os procedimentos psicanalíticos sem cair em uma esterilização da técnica? Como construir um método – caminho a seguir – sem perder de vista a singularidade do encontro entre paciente e analista? O risco era o de propor regras que passassem a ser tomadas como verdades absolutas – às quais não caberia nenhum questionamento –, levando a um distanciamento dos preceitos de autonomia, liberdade e singularidade da psicanálise. De fato, Freud sempre salienta que o domínio da técnica é alcançado principalmente pela experiência clínica, a qual não diz respeito apenas ao atendimento de pacientes, mas também, e fundamentalmente, à experiência clínica da análise pessoal. O cuidado com a escuta de si mesmo aparece no texto freudiano como condição sine qua non para a possibilidade de exercer uma escuta em relação ao outro.

 

De uma arte interpretativa à escuta da repetição

São as aventuras clínicas, com seus fracassos e sucessos terapêuticos, e as aventuras da psicanálise aplicada1que vão conduzindo Freud a importantes formulações teóricas. A introdução de conceitos como narcisismo e transferência, bem como a constatação do fenômeno da repetição são decisivos para evolução a um novo tempo da técnica psicanalítica. Em Além do princípio do prazer , Freud analisa essa evolução, salientando que no princípio a psicanálise era, acima de tudo, uma arte interpretativa. Isto é, o intento do psicanalista reduzia-se em descobrir, decifrar, reunir e comunicar o material inconsciente do paciente, combatendo permanentemente as resistências imbuídas a esse processo.

Tornou-se cada vez mais claro que o objetivo que fora estabelecido – que o inconsciente deve tornar-se consciente – não era completamente atingível através desse método. O paciente não pode recordar a totalidade do que nele se acha recalcado, e o que não é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial (1920, p. 31).

A conceitualização da pulsão de morte e da compulsão à repetição como sua manifestação clínica impuseram uma nova demanda técnica: além de ter alcance sobre o que não é acessível devido ao recalcamento, é preciso alcançar também o que é inacessível por ser desligado, não representado. E assim a escuta psicanalítica transforma-se e amplia-se radicalmente: a tarefa do psicanalista não mais consiste em recuperar uma história, mas também em possibilitar simbolizações estruturantes.

Neste sentido, a transferência ganha força como espaço privilegiado do trabalho analítico. Nela a palavra dirigida ao analista terá que ser remetida às suas originais determinações, evidenciando o valor de uma história sempre única e singular. Talvez aí se faça presente com mais clareza o que está além da palavra escutada no processo analítico: a transferência como ferramenta técnica fundamental só é possível na medida em que Freud vai valorizando o complexo encontro que ocorre entre o paciente e o analista. Fora do papel de decifrador, o analista depara-se com um psiquismo aberto, que produz e reproduz continuamente efeitos de uma história.

Em Análise terminável e interminável, Freud (1937) aponta o efeito da escuta no campo analítico: a análise é um processo terminável enquanto se refere ao uso da capacidade de escuta do analista, mas interminável enquanto se refere à capacidade adquirida pelo paciente de escutar-se. O processo analítico, a partir da escuta do psicanalista, envolve a instrumentalização da escuta do paciente em relação a si mesmo.

 

O encontro na clínica psicanalítica

Luis Hornstein (2003), psicanalista argentino, ao trabalhar as relações entre intersubjetividade e clínica psicanalítica ressalta o quão importantes são os suportes teóricos do analista, uma que vez que são eles que caracterizam e sustentam a práxis. É desde seus preceitos teóricos que o analista enxerga o paciente como ser psíquico e sustenta sua escuta diante dele.

A ciência, em um primeiro momento, preconizava a possibilidade de predizer toda a realidade do mundo, à medida que fossem estabelecidas as leis gerais de funcionamento da natureza. Entretanto, a física – ciência da qual Freud se vale para suas formulações sobre o funcionamento do aparelho psíquico – passa, desde a época freudiana, por transformações radicais em muitos de seus construtos, abrindo espaço para o quântico, o relativo, o complexo, o instável, o criativo. Transformações que levam ao questionamento da visão determinista do mundo, ao renascimento da noção de imprevisto e à incorporação, pela ciência, da noção de probabilidade. Transformações que levam à quebra do paradigma do determinismo, o qual minimiza a criação e a liberdade. Conduzindo tais transformações e suas implicações ao terreno psicanalítico, é possível compreender o psiquismo como um sistema aberto , que tem uma organização determinada, mas que pode modificar-se e adquirir novas propriedades. “Pensar o sujeito como um sistema aberto à intersubjetividade, não somente no passado, senão na atualidade, exige refletir sobre as tramas relacionais e seus efeitos constitutivos da subjetividade” (Hornstein, 2003, p. 97). O que é da ordem da relação ganha destaque, acima de tudo a partir de seus efeitos sobre o sujeito, uma vez que esta concepção de psiquismo como sistema aberto pressupõe um permanente intercâmbio e uma complexa rede de inter-relações entre sujeito e objeto.

A busca pela historização do indivíduo torna-se imprescindível. Freud sempre manteve a aspiração de recuperar a verdade histórica a partir da narrativa do paciente. Hornstein aponta para a possibilidade de articulação dos acontecimentos históricos significativos com as montagens fantasmáticas que acompanham suas representações psíquicas. Encontrar relações entre circunstâncias reais e fantasmáticas e articulá-las com a interpretação que o sujeito elaborou acerca do vivenciado. Historizar implica considerar que a história não é uma estrutura invariável, nem um conjunto de acontecimentos imprevisíveis.

Desde a primeira sessão a história oficial é confrontada com aquela que o analista ajuda a construir, analisando as formações de compromisso. Os testemunhos do passado são os sintomas, as transferências, as repetições, as formações de caráter, os sonhos e também as recordações (2003, p. 102).

Justifica-se, então, a análise dos suportes teóricos que sustentam a práxis do analista. Considerar o psiquismo como um sistema aberto, considerar que o psiquismo produz e reproduz continuamente efeitos de uma história, implica colocar a escuta em um campo intersubjetivo, ou seja, no campo da transferência. Entretanto, ainda que analista e analisando estejam incluídos no mesmo campo, não há entre eles uma relação de simetria. É a capacidade de escuta do analista que garante a assimetria necessária ao processo. Escuta da pulsão, que insiste no alicerce de cada palavra. Escuta da pulsão evocada em cada palavra. Vivência pulsional reatualizada, repetida, insistente na busca por satisfação. Escuta que mantém a transferência, mas não se confunde com ela, não cede à convocatória constante do paciente.

O analisando se dirige ao analista como sendo o único destinatário de sua palavra, o que não é mais que a tentativa que o analisando faz de articular seu desejo a uma presença concreta. De atribuir ao desejo um objeto para não reconhecer que o desejo, em sua impossibilidade de satisfazer-se, implica em uma falta, em uma ausência (Alonso, 1988, p. 3).

Escuta que pressupõe a abstinência do analista, impedindo uma satisfação substituta do desejo e remetendo o sujeito às origens infantis de seu amor. Desejos, que ao não serem satisfeitos, abrem a possibilidade de ressignificação.

 

Análise: interjogo de possibilidades e limites da escuta

A importância da escuta na psicanálise vai se evidenciando na medida em que percorremos os textos freudianos. As recomendações da técnica, assim como os desenvolvimentos teóricos, apontam sempre para a preocupação de Freud de que a psicanálise não perca o que a diferenciava das demais possibilidades terapêuticas: o valor dado ao autoconhecimento e à liberdade pessoal. O que visa ser escutado na psicanálise resulta em uma psicanálise da escuta. Os lapsos, os sonhos, as repetições, os sintomas; enfim, as formas de subjetividade – livres de uma classificação ou de rótulos – abrem espaços de singularidade.

A teoria psicanalítica não pode ocupar o lugar da história de vida do paciente. Os fantasmas do analista não podem ensurdecê-lo no encontro com o paciente. Desta forma, o famoso tripé – formação teórica, atividade de supervisionar-se e análise pessoal – constitui os recursos na qualificação do processo de escutar o outro. A própria história da psicanálise, nos relatos clínicos de Anna O. e Dora, atestam os riscos da “surdez” do analista. Como bem assinala Hornstein:

É possível pretender que fórmulas simples permitam compreender o processo analítico? Não, analisar é hipercomplexo: escutar com atenção flutuante, representar, fantasiar, experimentar afetos, identificar-se, recordar, auto-analisar-se, conter, assinalar, interpretar e construir (2003, p. 105).

De fato, a preocupação com a formação do analista está presente desde os tempos iniciais. Quando Jung, a partir de seu trabalho em parceria com Bleuer na Clínica do Burghölzli, tem a idéia de “tratar os alunos como pacientes” (Roudinesco e Plon, 1998, p. 17) está lançada a semente para o que depois tornar-se-ia a exigência da análise didática na formação de futuros analistas. É fundamental destacar, porém, que em 1925, quando foi instituída na Associação Psicanalítica Internacional (IPA), a obrigatoriedade da análise pessoal para a formação psicanalítica visava a socialização entre professor e aluno, e o afastamento das práticas de idolatria e imitação a Freud. Parece que, todavia, o intuito inicial distorceu-se, já que:

ao longo dos anos, a IPA se havia transformado num vasto aparelho atormentado pelo culto da personalidade (...). Reencontrou-se, assim, na análise didática, o poder da sugestão que Freud havia banido da prática da Psicanálise. Em conseqüência disso, seus herdeiros passaram a correr o risco de se transformar em discípulos devotos de mestres medíocres, quer por se tomarem por novos profetas, quer por aceitarem em silêncio a esclerose institucional (p. 18).

Talvez aí tenha se perdido o que deveria ser o ponto maior de identificação com Freud: a liberdade de pensamento. Percebe-se, assim, que na intenção de criar regras de qualificação do analista em sua escuta clínica, outros temas foram se interpondo entre o processo de ser escutado para ser um psicanalista e o cumprimento das exigências para ter autorização de ser um psicanalista. Mas criam-se sombras frente aos temas que aludem à questão da análise pessoal, e que tentam permanecer disfarçadas atrás dela. Sombras que, uma vez existentes, parecem transformá-la muito mais em uma busca em atender expectativas pré-estabelecidas e institucionais do que em uma busca em cuidar de si próprio como condição fundante da própria capacidade analítica.

Alonso (1988) demarca com propriedade que os mesmos fatores que podem oferecer possibilidades ao analista em relação à sua escuta também podem limitá-la. Em torno do analista estão seu fantasma, sua história pessoal, sua teoria e ainda a história e a atualidade do movimento psicanalítico. Escutar-se de fato em sua análise pessoal permite a instrumentalização do analista e oferece, conseqüentemente, a possibilidade de utilização de todos estes fatores como recursos que incrementam sua capacidade de escuta e de verdadeira sustentação do seu lugar. Em contrapartida, a adesão dogmática e a conversão em um estereótipo de psicanalista provocam, inevitavelmente, a limitação: o “fantasma torna-se limite para a escuta nos pontos cegos. A teoria passa a ser limitadora da escuta quando entra na sessão para ser aplicada ou confirmada” (p. 5).

Assim, o alcance da escuta do analista também está intrinsecamente vinculado a um processo de historização, a qual implica a apropriação de um fazer-se psicanalista, a compreensão que este é um processo complexo, contínuo e interminável. E o reconhecimento que:

a possibilidade de escuta está no próprio desejo do analista, recuperado a cada momento pelo trânsito das associações que lhe permitem reconhecer seu desejo pessoal em jogo para poder a ele renunciar, levando-o a não ter a necessidade de querer assegurar seu lugar – nem pela rigidez dosetting , nem pela rigidez do gesto (p. 4).

Ao propormos percorrer a história da escuta na psicanálise, chegamos à escuta da psicanálise. Ao lançarmos nosso olhar para a importância dada pelo analista às palavras de seu analisando, demarcou-se o fundamental papel da escuta do analista em relação a si próprio, em sua análise pessoal. De fato, a escuta da psicanálise encontra sua vitalidade na capacidade do analista reconhecer o valor e a necessidade de ser ele próprio escutado, promovendo em si uma capacidade que está fora do domínio da rigidez ou da padronização, e que por isto abre vias de acesso à escuta do outro. Assim, recupera-se no tempo de cada analista a criatividade e a vitalidade dos novos tempos inaugurados por Freud: o reconhecimento do inconsciente e dos recursos de acesso à compreensão de seus efeitos.

 

Referências Bibliográficas

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